Em Sonho de uma Noite de Verão, Shakespeare dá a receita de uma poção do amor. Que não é ingerida, e sim untada sobre os olhos fechados da pessoa amada. Quando ela os abrir, será tomada por uma paixão irrevogável pela primeira pessoa que avistar. O que pode ser um problema, como, inclusive, se constatou na peça.
Mesmo assim, os ingleses da Sociedade Real de Química estudaram o texto de Shakespeare e, dias atrás, refizeram o elixir. Se você quiser tentar em casa, uma dica: trata-se de uma infusão com pétalas de amor-perfeito. O resto da fórmula, bem, é melhor você mesmo ler a peça.
Só que os próprios ingleses descobriram uma outra poção do amor que certamente suplantará a do poeta por ser bem mais popular e fácil de ser obtida. É, quem diria?, o chocolate!
Aplicadas algumas pesquisas, os ingleses concluíram que amiúde as mulheres encontram maior prazer ao comer chocolate do que ao fazer sexo, agora veja. Mais: se um saboroso naco de chocolate for administrado na hora certa, por exemplo, durante o ato amoroso, o gozo da mulher será talvez redobrado e ela tende a se apaixonar abrasadoramente pelo homem que a alimentou de forma tão meiga.
Você compreendeu? Quando estiver na plenitude do fogo da paixão, faça sua amada mordiscar um bombom suave, uma delicada barra de chocolate, e você proporcionará a ela uma noite de satisfação carnal inesquecível. Donde o sucesso do leite condensado, em determinadas ocasiões.
Certas comidas realmente têm profunda influência no comportamento do ser humano. Os romanos pregavam que quanto pior a ração, mais furioso se tornava o exército. E conquistaram o mundo.
Lembro-me de um Gre-Nal dos anos 70 em que a direção do Grêmio distribuiu tequila aos seus torcedores. Não embebedou a torcida, longe disso. Cada gremista recebeu apenas um daqueles copinhos pequenos, de plástico, uma dose mínima da bebida.
Mas aquilo incendiou a arquibancada, a torcida do Grêmio gritava como uma horda germânica atacando romanos na fase bem alimentada da decadência. Aliás, aconteceu algo curioso na primeira vez que germânicos e romanos se enfrentaram – os bárbaros germânicos, enormes, cabeludos, barbudos, bem bárbaros mesmo, berraram tanto e tão ferozmente que a legião romana debandou em uma fuga horrorizada e pusilânime.
Por que essa estratégia não é empregada outra vez? Não a dos berros, mas a da alimentação, bem entendido. Dirigentes do Inter temerosos do Portão 8 e dirigentes do Grêmio incomodados com a rabugenta torcida das sociais poderiam distribuir chocolate nos estádios. Teríamos, no Beira-Rio e no Olímpico, torcedores mais satisfeitos, mais pacientes.
Mais doces, enfim. Afinal, não seria possível passar o elixir de Shakespeare nos exigentes olhos de todos os torcedores, certo? É isso, então. Ou contratar centroavante. Outro jeito não há.
Por David Coimbra
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