Ninguém gosta de quem não gosta de si mesmo. As pessoas pensam: “Se ele que é ele, que se conhece desde que nasceu, que convive com a pessoa dele todos os dias e o dia inteiro, que conhece o seu passado de memória, se ele não gosta dele, por que eu, que não disponho dessas informações, vou gostar?”
Mas também acontece o contrário: alguém que gosta muitíssimo de si mesmo influencia as outras pessoas a seu favor. Observe um respirante qualquer que seja muito confiante, que seja seguro de si. Um desses que estão sempre se elogiando. Os outros olham para ele e pensam: deve haver algum motivo para toda essa presunção. Não é possível alguém se amar tanto, se não tiver nada de especial. E, assim, os outros têm a tendência de gostar do exibido.
É o princípio da propaganda. A propaganda funciona. O que diz muito sobre a natureza do ser humano, sobre como o ser humano é intrinsecamente bom. Ou ingênuo, você escolhe. Afinal, pela lógica, as pessoas deveriam desconfiar da propaganda, já que a propaganda, na essência, é a autoexaltação e quem se autoexalta, bem, SE exalta.
O genial da coisa é que a propaganda não precisa de argumentação coerente, não precisa ser comprovada pela realidade; precisa apenas de repetição. É algo que se sabe bem antes de Goebbels ter dito que uma mentira repetida muitas vezes se transforma em verdade. Há mais ou menos 2.200 anos, Catão, o Grande, sempre encerrava seus discursos no senado romano com a mesma frase:
– Delenda est Carthago!
Ou: Cartago deve ser destruída.
Podia discursar sobre a tepidez das águas das termas do Palatino; podia falar das sacanagens na Suburra, que era o bairro do pecado; podia discorrer sobre o lendário Lúcius Cincinatus, que milênios mais tarde emprestaria o nome a uma cidade de Ohio; podia discursar a respeito de qualquer coisa, o Catão, que concluía assim:
– Além disso, acrescento: Cartago deve ser destruída!
Catão repetiu tanto essa frase, tanto, tanto, que os romanos começaram a cogitar se de fato ele tinha razão. Concluíram que sim, atravessaram o Mediterrâneo, irromperam no Norte da África, arrasaram Cartago pela raiz e salgaram-lhe o solo calcinado para que dele nada mais nascesse.
A propaganda funciona.
Tivesse eu a magnitude de um Catão, repetiria todos os dias: o importante para o Brasil é a educação básica.
São as crianças.
Diria mais: diria para esquecerem os adultos. Para que não construam mais presídios, para que não gastem mais em energia, para que esqueçam as comunicações, para que só pensem nas crianças. As crianças, as crianças, as crianças.
Salvem as crianças.
Salvarão o Brasil.
David Coimbra - 30/07/2010.
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